sábado, 8 de dezembro de 2007

Uns caminham mais devagar que outros


Às vezes não sabemos a sorte que temos.

É costume dizer-se que só damos valor ao que perdemos. Mas, como se dá valor ao que nunca tivemos?

A vida às vezes prega-nos partidas. E se conseguirmos aprender com elas, viveremos muito mais felizes.

Isto hoje vem a propósito das crianças desfavorecidas que habitam nas Instituições de Solidariedade Social.

Não, não é por ser Natal; não é por estarmos a entrar numa época em que se fala muito de compaixão e amor ao próprio mas faz-se muito pouco.

Tive o privilégio de organizar actividades desportivas e de lazer para duas dessas instituições. Tal só foi possível por uma grande empresa do panorama nacional ter decidido apadrinhar essas instituições e ao abrigo da Lei do Mecenato (penso eu) proporcionar melhorias nas vidas destas pessoas.

Pessoas dos 3 aos 25 anos. Crianças e jovens com percursos de vida tão tortuosos que, com metade da minha idade já viveram o dobro, pois o tempo não perdoa.

Olhar nos olhos destas crianças e nalgumas delas e não ver esperança é muito doloroso.

Dói olhar para estes jovens e notar que desistiram da vida. Vivem por viver, empurrados de "lar" em "lar", resgatados pela Segurança Social em situações próprias do Darfour e não de um pequeno país de brandos costumes à beira mar plantado.

No final da actividade as lágrimas vinham-me aos olhos ao ver a satisfação destas crianças. Havia agora esperança no olhar. Estavam felizes com um dia, no qual ninguém lhes batia, ninguém lhes gritava, ninguém lhes chamava nomes feios. Um dia em que faziam aquilo que era suposto fazerem todos os dias - brincar, rir, sonhar.

Ao final do dia, fazendo o balanço, achei que a actividade tinha corrido muito bem. Bem organizada em segurança e qualidade.

Mas, se tinha corrido tão bem, porque é que eu continuava com aquele aperto no coração, que me esmagava e oprimia?

Para um pai é fácil compreender. Ao ver aquelas crianças, algumas delas com a idade dos nossos filhos, não é possível separar as emoções e não vermos a cara dos nossos filhos estampadas naqueles rostos.

Fui para casa dar muitos beijos, abraços e mimos à minha filha. Olhava para ela e pensava se ela saberia dar valor ao amor que tem à sua volta. Por agora, talvez esteja mais interessada em poder mexer nos seus brinquedos.

É que para os outros meninos, o dia chegou ao fim. O sonho desvaneceu-se e amanhã é o voltar ao quotidiano.

Só espero que agora, com um pouco mais de esperança no olhar.

Muito obrigado DANONE!

Um comentário:

Aelius disse...

A vida mostra sempre lados que não esperamos ou que planeamos. As que têm a sorte de dizer que viveram, são aquelas que aproveitaram os bons momentos quando eles aconteceram, pois toda uma vida resumir-se-á a momentos breves mas intensos.